domingo, 23 de maio de 2010

“Meu Deus, agora têmo fodído!”

A chegada no Shopping Iguatemi em Caxias do Sul não foi garantia de descanso para o motorista Zé. Mesmo tendo que enfrentar uma noite ao volante, alguns companheiros de viagem, insensíveis à situação, não se contentaram com as opções do templo do consumo e nem com a paz do interior do busão. Resultado – nosso motorista tornou-se também porteiro por livre e espontânea pressão.

Tomada a estrada, tudo indicava um passeio tranqüilo – ledo engano! Uma da matina um estrondo na parte traseira do ônibus indicava o estouro de um dos pneus. A parada para a troca atrasou em pelo menos algumas horas a viagem. Alguns quilômetros para frente, entre as cidades de Sarandi e Frederico Westphalen outro pneu furado. Zé, nosso intrépido guia, sai do ônibus e ao se deparar com a situação é categórico: “Meu Deus, agora temo fodido”. As palavras foram registradas pelo acadêmico mais flatulento da viagem. A busca de um borracheiro iniciou 4 da matina na cidade mais próxima. Qual a chance de encontrar um profissional em estado sóbrio, nesse horário, na madrugada de sábado para domingo? Nenhum foi encontrado e a solução foi chamar socorro de Sarandi, por intermédio do dono da empresa (em São Miguel do Oeste).

Café da manhã: bolachas dormidas, fandangos e outros restos de uma semana de viagem no ônibus e um chimarrão amigo cevado com a ajuda de moradores da beira da estrada. Cansados, com estômagos semi-forrados e alguns humores alterados, a viagem prossegue lentamente.

“Quem pode garantir que não foi um de vocês?”

por Rafael Hoff

Quarto fechado e trancado no Hotel Real Palace, em Porto Alegre. As meninas que dividiam o aposento saíram juntas em visita aos veículos de comunicação da capital gaúcha. Na volta, a surpresa: o dinheiro deixado na cômoda ao lado da cama, dentro da carteira, havia sumido. Eram trezentos reais pelo menos.

A protagonista dessa lesão reclamou junto ao atendente, que prometia para a manhã da sexta-feira, dia do checkout, uma resposta oficial do hotel. Com intervenção do professor coordenador da viagem, o gerente do hotel quis colocar em xeque a credibilidade da excursão e a idoneidade de seus integrantes. A máxima surpreendeu: “quem pode garantir que não foi um de vocês?” O dilema foi resolvido com a devolução do dinheiro à estudante proporcional ao desconto dado nas estadias. Mesmo diante do abatimento, a avaliação do grupo é de que a experiência saiu cara. Chamou a atenção que a relutância do gerente do hotel ao ressarcimento do dinheiro sumido foi menor do que o esperado... A professora que por lá transitou já tinha questionado a segurança do estabelecimento e a resposta do mesmo gerente foi de que era “muito seguro”.

Pentelhos espalhados pelo chão, lençóis manchados com sangue, toalhas furadas, mofo no canto do quarto, chão encardido, copos no frigobar com uma “capa” de substância não identificada em seu interior e várias outras constatações levaram ao diagnóstico: o hotel era de péssima qualidade. A necessidade de permanecermos por lá duas noites foi aterrorizante para alguns, interessante para outros. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Fora da foto oficial

O Expocom, concurso de peças acadêmicas com argumentação científica realizado em Novo Hamburgo, rendeu bons resultados à equipe de São Miguel do Oeste. Os trabalhos em Fotografia Jornalística e Produção em Jornalismo Interpretativo foram arrematados pelos acadêmicos Alan Castaman e Ricardo Torres, respectivamente. Porém, um descuido na impressão das listas dos vencedores fez com que a comissão organizadora não chamasse tais categorias no momento coletivo.

Avisada de que o erro havia sido cometido, a professora coordenadora da mostra competitiva desculpou-se publicamente em nome da comissão. As palavras de uma colega definiram a situação: “é humano errar e coisas assim acontecem em grandes eventos como esse, mas não há nada que faça o tempo voltar e esse pessoal não vai participar da foto oficial”. A exclusão momentânea não diminuiu o entusiasmo da galera, que volta para a Unoesc com a certeza de que o isolamento geográfico e condições técnicas inferiores às grandes instituições de ensino da região metropolitana não diminuem a capacidade competitiva ou a formação jornalística dos mesmos.

E para a comissão organizadora do Intercom Expocom 2010, os nossos PARABÉNS!

Tempo de voltar a ser criança

A estadia em Garibaldi compensou as péssimas acomodações do hotel em Porto Alegre. Na Serra Gaúcha, o Ginásio Municipal acolheu os estudantes de Jornalismo da Unoesc. A sala de ginástica, equipada com colchonetes e até uma cama elástica tornou-se palco de uma transformação: o espírito infantil de alguns veio à tona. Saltos, cambalhotas, jogo de bola com pés descalços e muitas brincadeiras amenizaram o desgaste físico e mental. “Depois de sair da cama elástica eu não sentia mais o meu corpo” disse Silvana.

Os banheiros com chuveiros quentes compensaram a falta de papel higiênico nos sanitários. Marlise entregou a estratégia: “fui ao banheiro e depois tomei banho”. Com bundas limpas e espíritos renovados, o descanso foi merecido, porém curto. Antes das oito da manhã o ônibus já estava com as malas acomodadas e a tripulação a bordo. Café da manhã rápido e impreciso, com alguns esquecimentos por parte do garçom, foi recheado pela conversa com Delano Pieta, assessor de imprensa de Garibaldi, relatando a experiência junto ao poder público. Mais uma vez, Silvana resume a impressão do grupo: “gostei desse cara”.

Na saída de Garibaldi, alguns acidentes registrados: durante a noite a Silvana, ao tentar levantar-se do colchão inflável, destroncou o dedão da mão direita. Ao retornar ao ônibus, vítima de um buraco na calçada, Camila aparou o peso do corpo junto ao chão com os joelhos. Dor, lágrimas e experiências vão povoar as memórias da galera por algum tempo...

A difícil arte do convívio em grupo

Durante uma viagem de sete dias, 700km só de ida, 20 pessoas confinadas aos limites do ônibus, o cenário está armado para que detalhes de personalidade e caráter se mostrem com maior nitidez. E esse é um exercício, na ótica do professor que organizou a viagem, de aprendizado para além dos conceitos e teorias, mas que muito tem a contribuir com o futuro profissional destes acadêmicos.
A primeira parte do conflito foi protagonizada pela música e conversa, ainda na viagem de ida para Porto Alegre, onde o grupo do fundo não quis dormir antes das 6h e o grupo da frente acordou as 7h30. Interesses e comportamentos a parte, o desrespeito e o exercício de reconhecimento dos limites foi a tônica desse momento.
A segunda parte foi na percepção e respeito por horários. A maior parte do grupo aguardando dois ou quatro estudantes retardatários que insistiam em caminhar a passos lentos entre os lugares visitados e o embarque. Qual é o limite da tolerância? Cinco? Dez mintos? Meia hora? A tolerância e o reconhecimento dos limites continuava em alta.
Frases emitidas por reflexo. Evidências culturais de traços homofóbicos, racistas e outras formas de discriminação também forma manifestados durante a visita, nem sempre de forma velada ou indireta. O constrangimento apareceu para alguns, enquanto outros genuinamente não fizeram questão de avaliar as próprias condutas. A perspectiva cosmopolita de diversidade e liberdade passou batido por algumas cabeças e alguns corações. A diversidade precisa lidar também com essa perspectiva... Vale então a máxima da música: “tudo é uma questão de manter... a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”.
Cheiro forte. Ruim. Revoltante. Janelas abertas as pressas para deixar sair o odor horrendo que provinha das tripas de um acadêmico. Entre mortos e feridos, novamente, salvaram-se todos. Porém, a experiência vivida em Guarapuava e novamente na ida à Novo Hamburga ensina: tem gente que precisa de lavagem intestinal antes de embarcar.
Mesmo diante dos desafios, o grupo se saiu muito bem. Algumas aproximações foram oportunizadas e as “panelinhas” tornaram-se menos fechadas, mais propícias à troca. Estereótipos também foram quebrados.
Registro da frase mais repetida durante o evento: “o Abba peidou”!

São Borja, a terra dos Mano


Ricardo Torres e Alan Castaman
Já se passara um dia e meio de viagem, especificamente, o segundo dia de Intercom Sul. Galera afoita em suas salas de apresentações. Ricardo Torres, Gabriele Welter, Angela Batisti e Alan Castaman foram os representantes da Unoesc São Miguel do Oeste no congresso de estudantes de comunicação. Na categoria fotografia jornalística, surge um “mano” gente fina, da cidade de São Borja-RS. O rapaz, dedicado estudante de jornalismo, apresentou uma foto marcante do maior ícone vivo daquele lugar. Falamos de outro mano, o Mano Lima. O rapaz, durante apresentação perante a uma banca de três professores, explanou fotografia concorrente. Durante argumentação, ficou evidente um grande amor pela cidade de São Borja. Repetitivamente, a cidade próxima ao Uruguai, foi citada. Um enaltecimento agudo de um lugar com características especiais, singulares.
Providos de uma imaginação fértil, os estudantes da Unoesc de São Miguel do Oeste não hesitaram em fazer referências a São Borja. A brincadeira, carregada do sotaque local, consistiu em deturpar a realidade daquele lugar simplório. São Borja foi transformada (pela imaginação dos migueloestinos) em uma megalópole, progenitora de diversas culturas existentes no mundo. E o principal responsável, de acordo com a gurizada, foi Mano Lima. Irmão mais velho do Mano Tange e do Mano Berga.
A brincadeira iniciada por apenas alguns acadêmicos ganhou força. A adesão tornou-se quase que total. Diversas cabeças pensando em uma forma de associar tudo a São Borja, só resultou em uma coisa: risos e descontração. Diante de uma viagem de estudos pontuada por alguns problemas – furto de dinheiro, hotel ruim, tombos, pneus furados e atraso no horário previsto para retorno – o que fica marcado é a alegria por, a partir de agora, restarem lembranças boas, recordações agradáveis e incríveis histórias, que possivelmente serão registradas por aqui.